terça-feira, 19 de novembro de 2013

Cosmopolita errante

COSMOPOLITA ERRANTE

Na revolução neolítica, eu era harappeano.
Na Idade do Ferro – época pré-incaica –
estive na Grécia e no Império Romano.
Fui cativo na primeira díaspora  hebraica,

e voltei à terra entre o Tigre e o Eufrates.
Vivi no Egito, Fenícia, Creta e Anatólia.
Se na Assíria e Babilônia ergui zigurates;
pela a Rota da Seda cheguei à Mongólia.

Fui chinês, persa, islâmico e bizantino.
Tenho raízes tapajônicas e do povo andino
misturando-se com o meu legado hitita.

Então sou afro-americano e indo-europeu.
mas sigo perguntando: _ Quem sou eu?
_ Este ser errante, infeliz cosmopolita.

*Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Inquietudes

INQUIETUDES

O ponto entre o sensível e razão pura,
sou eu cheio de incógnitas e inquietudes.
Essa é a origem dessa luta obscura:
entre as sanhas ocultas e virtudes.

No peito há fissuras de placas tectônicas
da crosta dum planeta em agonia.
Na ascensão de forças antagônicas,
no bem e mau de paixões em tirania.

É o tormentório desequilíbrio drástico,
no vaivém de emoções, potencial elástico,
no mar com calmaria ou escarcéu.

Das nuvens negras vem chuva fecunda.
mas da guerra não vem paz profunda,
nem tampouco, o reino do céu.

*Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Entre mundos

ENTRE MUNDOS

Percorri a vaga e gigantesca distância,
andando dorido, como sempre, errante.
A dor invadiu o meu peito, triunfante,
sufocando o breve anseio e a jactância.

Havia dois mundos em concomitância,
mas agora vivo o mundo equidistante
daquele que reivindico, suplico ululante,
para viver no impérvio, doce estância.

Lá só o amor vem aliviar as inquietudes.
Quero que ele entre em todas as latitudes,
do meu desespero não euclidiano.

Foram tantos desertos que segui a esmo,
querendo conhecer a mim mesmo...
esse é o maior sofrimento humano.

*Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

A morte do homem

A MORTE DO HOMEM

Não quero chorar meu pranto infuso
no ego onde ódio e amor se interagem.
Lá fora há uma persistente estiagem;
aqui é aquoso, salgado e confuso.

É um mundo de paixão que não uso.
Lá fora, o outono; outra roupagem.
Já me sinto diáfano como uma visagem
ou um simples pensamento intruso.

Morre homem velho sem esperança!
Volte novamente a ser criança;
ame, e viva a vida, a fugacidade.

Renasça das cinzas do mundo irrisório.
Arranque esse fardo tormentório
e proclame de vez a tua liberdade.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Sertão

SERTÃO

Um dia seguindo o anjo insipiente,
que não enxergava a desgraça humana.
Parti para o sertão – perdi a tramontana –
onde a miséria se vestia de gente.

Quando apareceu o verme eloquente
o qual possuía a fala doce e lhana.
Logo fui atraído por sua chicana;
por ser jovem e olvidar a serpente.

Hoje, do ressentimento, sou escravo.
Aquele sertão era tão hostil e bravo,
quanto o drama da floresta de cimento.

Entretanto o urbe é o lugar que conheço.
Se ainda hoje busco, choro e padeço,
foi a tolice e a falta de discernimento.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Íntimas palavras

ÍNTIMAS PALAVRAS

A letargia evasiva muito acabrunha,
igual a noite do destino de Maomé;
ou do caso da tentação de Cristo e sua fé
pelo Diabo – que é apenas uma alcunha.

Pois o próprio eu é a única testemunha
do confronto de sombras do ser o que é.
Oh! Pobre do credo tangível de Tomé
que poderia confundir alpaca com vicunha.

Não há liberdade fora do mundo sensitivo.
A alma se vende ao pranto corrosivo,
pois a dor é da natureza dessa triste raça.

Se a alegria é uma coisa de momento,
então não pode haver autoconhecimento
vivendo no meio de tanta desgraça.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Emoções do poeta

EMOÇÕES DO POETA

Um poeta com emoções sem rumo,
enclausurado no quarto gélido e vazio.
Mirando a miséria, sofreu arrepio...
para as emoções, não há um resumo

de palavras como frutas de acre sumo.
O lenço antes úmido e alvadio,
agora é sangrento, lagrimal e sombrio.
Tudo que há é um suspiro sem prumo.

O poeta vira bicho ferido e sozinho
trazendo a sana voraz no focinho;
caçando a paixão, seguindo o feromônio

exalado pelo o cio da volúpia contida.
Destarte o único restolho da vida
é o poeta a despertar o seu demônio.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Indivíduo artificial

INDIVÍDUO ARTIFICIAL

O espermatozóide, o ovócito, a fertilidade:
a tríade mais maravilhosa da natureza.
Mas é um paradoxo que causa estranheza,
se o triste é compor esta humanidade.

A existência se alimenta da fugacidade
de amores os quais ocultam dor e frieza,
onde o que predomina é a vileza;
onde o ser perde a sua identidade;

onde o modo de produção consumista
deixa o ser cada vez mais individualista,
mas ele como indivíduo é deteriorado.

Esse é o homem pós-moderno e gregário:
procura a vontade, mas é involuntário
mecânico, mercadoria e alienado.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Gênio

GÊNIO

Vim ao mundo com o senso que perdura
nas elucubrações dum formidável gênio.
Ele já existia no mais remoto milênio,
pois fez o coletor conhecer a agricultura.

Era a época quando houve a ruptura
da vida nômade do filho do hidrogênio
dependente dum elemento calcogênio,
das organelas e da percepção imatura

que ainda não entendeu o ser humano.
Representou-me num gráfico cartesiano
nas retas em invertidas concavidades...

O sábio demônio deixou no abandono
a ínfima simples estrutura de carbono
no universo complexo de possibilidades.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

A ciência

A CIÊNCIA

O avanço tecnológico é frenético.
A certeza a todo tempo é abalada.
Se na física quântica não existe o Nada;
os desejos se debatem no hipotético.

Enquanto é mapeado o código genético,
a experiência sensorial é derrubada
pela crença que se disfarça misturada
no anacrônico racionalismo cético.

Se todo sorriso é sempre dependente
da pseudo-alegria – insana dor latente
na pseudo-certeza na pseudo-existência –

ainda há recurso, a fuga do eu é preciso.
Para não perder completamente o juízo
o homem crê na excelsa Providência.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Deus imaginário

DEUS IMAGINÁRIO

Neste mundo onde a caridade é tolice
o individualismo é o único abrigo...
Oh! Senhor Deus, imaginário amigo,
queria tanto que você existisse

para ofertar um pouco de meiguice
a essa humanidade que traz consigo
trevas, miséria, sofrimento e perigo.
Talvez fosse melhor que você a punisse,

assim como fez à Atlântida lendária.
Hoje a razão já não é tão necessária;
a fé do homem não orienta, o aliena.

Para não ser um completo pessimista
não fico bitolado neste mundo egoísta.
Creio numa civilização extraterrena.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Monge insano

MONGE INSANO

Um dia um monge exaltando a sua gnose
queria voltar ao universo subatômico.
Não queria depender do RNA ribossômico,
do ácido desoxirribonucléico e da glicose.

Queria que suas células fizessem apoptose.
Não aceitava o ermo aquoso fisionômico,
se o amor é um engodo tragicômico
cuja interação lembra uma osmose.

Então se viu dependente do oxigênio;
percebeu que universo era heterogêneo,
sem individualidade no referencial terreno.

Seu pranto era o solvente, e ele o soluto.
Não morreu, porém, vestiu-se de luto
vendo que a vida é seu próprio veneno.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Soneto

SONETO

Pelo ambiente repugnante e medonho –
ninguém tem culpa – já nasci desgraçado
pedindo para meu amigo, deus Fado:
deixa-me morrer por algo, por meu sonho.

Na tristeza, desde o óvulo, sou inconho.
Estou nesse ponto tangível enclausurado.
O tempo não existe; o espaço não é fixado.
Isso lá fora... Aqui é insípido e enfadonho.

Não há o divino, mas uma força mecânica,
que é indiferente com a matéria orgânica
e com as convicções humanas neófitas.

Quando não correr sangue às artérias,
só resta ao homem alimentar as bactérias,
das espécies heterótrofas saprófitas.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

O Homem

O HOMEM

Um dia o homem saiu da ignorância,
na qual o teocentrismo discorda
do incomensurável que transborda
estrelas e planetas em consonância.

Apesar de doar-se à beligerância,
decifrou os gametas e a notocorda.
Destarte do mundo grego se recorda
e desvenda sua própria substância.

Então o telescópio levou à relatividade.
Hoje essa tecnologia lhe persuade
a perceber como é tão insignificante.

Porque depois de quebrar o crucifixo,
viu que vagueava sem um ponto fixo
numa galáxia sem endereço importante.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Célula egoísta

CÉLULA EGOÍSTA

Blastômeros, mórula – células se dividindo –
assim cheguei a este mundo agonizante.
Hoje sou este homem viandante,
tentando manter-se vivo e sorrindo.

Continuo a me dividir e coexistindo
com o núcleo rijo do ego dominante.
Este mesmo que faminto, recalcitrante
no acaso, buscou se adaptar evoluindo.

Foi englobando moléculas e organelas.
As eras deixaram, para sempre, seqüelas.
Uma delas é a mitocôndria fagocitada.

Célula egoísta que só vive em conjunto,
largará este ser quando ele for defunto
e partirá de novo ao reino do nada.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Ego navegante

EGO NAVEGANTE

Tentei ir até onde a vista não alcança.
Logo me vi num desnudo bariônico perdido
ao buscar o amor não compreendido,
desde a mais remota etnia que descansa.

O horizonte ofuscante de água mansa,
era o imaginário de um ego aturdido.
As ondas revoltas não faz sentido,
tampouco a sacra bem-aventurança.

Lá fora, no indivisível universo tirânico
Já não tem espaço ao modelo mecânico;
assim é que o ego humano se explode

formando vários universos paralelos
presos ao fulcro de incognoscíveis elos...
por isso a visão já não vê o que pode...

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Instinto

INSTINTO

Quando vem a brisa de primavera,
suavemente, afagando o meu rosto;
ou mesmo ferindo a contragosto...
recordo as mãos meigas de uma pantera

que esconde as garras e não se exaspera.
Fico no jardim, sozinho e indisposto
vendo, ao longe, as queimadas de agosto...
sinto toda dor que no mundo impera.

Hoje as estações são meus devaneios.
Os invernos são matagais secos e feios
demonstrando que não voltou o sorriso.

Pois cheiro olores e provo outros frutos
dos mais doces e prazerosos atributos...
deserto-me do meu próprio paraíso.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Entre paredes

ENTRE PAREDES

Nas perspectivas sobre vários prismas
diante da genealogia de onde procedo,
O subjetivo forma um árduo enredo
Confrontando ceticismos e carismas.

Entre paredes há tormentórias cismas
oriundas do abraço falso e ledo.
Então fico com meus eus em segredo
formando um debate de sofismas.

Já não sei o que mais embriaga.
Se a cerveja ou a mão que afaga?
Ou o excesso de esperança morta?

Pois o colo desdenhoso que renega
é o mesmo colo afável que se entrega
e me alegra, fere... alfim reconforta

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Soneto

SONETO

Depois que a chuvarada lavou a rua,
lá fora se vê o monótono panorama.
É o mesmo ambiente, o mesmo drama,
a selvageria na qual se perpetua

Na falsa visão que a percepção insinua
a não viver os outros ângulos da trama
da decadência na qual se proclama
a miséria, onde o valor humano não atua.

Agora a chuva parece corrompida,
pois não leva a sujeira da alegria fingida
e nem a ignorância que se torna capricho.

Assim todo amor se acaba em trapaça.
Toda paixão humana se torna desgraça
e se extingui as espécies desse nicho.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Triste errante


TRISTE ERRANTE

Cheio de utopias eternas e desejos bons,
e o orvalho matutino sobre o rosto.
A vastidão dos campos em leves tons,
trouxe-me no imo um profundo desgosto.

Então recolhi o catre sobre a alfombra,
pois veio o borrifo e a saudade medonha.
Isso prova que só a agrura é a sombra
da lembrança mais errante e enfadonha.

De repente, a mistura de chuva e pranto
desabou dos céus e olhos, em cada canto
do coração resignado, insano e sôfrego.

Essa solidão é a que em mim encerra.
Se a chuva fecunda irrigava a terra,
as lágrimas corriam de rego em rego.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha


Mar da senectude

MAR DA SENECTUDE

Na rua, eu via os jovens curtindo o sol,
num dia de tempo quente e abafado.
Eles estavam felizes, jogando futebol;
e eu me via um objeto antiquado.

Quando o dia findou num parco arrebol;
me sentia um jovem velho e cansado.
Imaginei ondas batendo num ignoto atol...
a tarde era eu, o coral mais desgastado.

O terrível e arcano mar da senectude,
com ondas tenebrosas de inquietude,
jogou-me, de novo, nas praias da solidão.

Viajando nas fendas do rosto encoberto
de manchas dos grãos em mar aberto
o qual esfacelou o estúpido coração.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

À minha Mãe

À MINHA MÃE

Mãe, eu queria teu meigo acalanto.
Sei que a senhora sempre se alarde
nas noites em que sozinho chego tarde,
e só tenho o plenilúnio como manto.

Teu amor materno fiel e sacrossanto –
essa chama supina que na alma arde –
me alertando a não ser covarde;
temer o mundo e o próprio pranto.

Perdoe-me, mãe, digníssima senhora.
Obrigado pela devoção que me enamora,
e se põe em minha dor, como pessoa.

Tua honra é minha porta estandarte.
Tu ensinas que teu amor é uma arte... 
tu és o colo cujo amor sublime ressoa.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha

Doce inocência

DOCE INOCÊNCIA

Busco a inocência que não está morta
na memória deste velho saudoso rapaz.
Ainda há um jovem inocente e incapaz
de ir embora e não voltar abrir a porta.

Como o sangue que escorre na aorta.
A paixão, como a vida, é irrequieta e fugaz.
A dor insubmissa se torna perspicaz...
viver é necessário; sorrir já não importa.

Há paixões – essas forças antagônicas –
num tunelamento de volições agônicas
aspirando desejos amargos na abstinência

do vício das chamas que consomem
todo egocentrismo derrocado do homem...
Por isso se recorre a doce inocência.

* Todos os direitos cedidos a Rodrigo Azenha